Reflexão de uma década: o preço e a responsabilidade na vida com cães.

Esse ano eu fechei minha primeira década contínua de vida com cães. Não estou considerando os cães que fizeram parte da minha infância, já que naquela época a responsabilidade real não era minha. Durante esses últimos dez anos pude refletir e avaliar o grau de dedicação, aprendizado, escolhas e renúncias que fiz, por isso, faço aqui hoje, em relato que pode ser importante para muitos de vocês. 

Em 2008 tomei a decisão de ter um cachorro meu e escolhi, por sugestão, um Basset Hound, o Zico. Nessa época eu não imaginava que esse momento poderia definir tantas coisas na minha vida futura. Eu já gostava muito de cães, mas, como muitos donos de primeira viagem, eu tinha muito que aprender. Assim que o escolhi, ainda com 6 dias de nascido, voltei pra casa cheia de empolgação e mergulhei fundo no que seria o início do meu aprendizado. Comprei livros, DVDs, li artigos e fui atrás do máximo de informações possíveis que pudessem me ajudar. 

 Zico com 1 ano de idade.

Zico com 1 ano de idade.

No primeiro ano já tive várias surpresas inesperadas. Um segundo filhote, que seria o companheiro do Zico, o Zeca (de outro canil), veio com problemas sérios de saúde e faleceu aos 4 meses. Depois de 1 ano com o Zico adotei a Malu, uma SRD já adulta que foi uma grande professora para todos nós. Nesses primeiros anos já ficava claro que a vida com cães seria diferente, com mais compromissos, mais responsabilidades, e mais equilíbrio de tempo e energia para acomodar as necessidades de todos. Para muitos essa á uma fase desafiadora. Seus horários são mais restritos, sua rotina com o cão exige mais de você e muitas das suas atividades sociais ficam comprometidas se não houver um bom planejamento. 

 Malu

Malu

Quando Zico estava com 3 anos e meio ele teve uma crise grave e foi internado. Depois de uma semana veio o diagnóstico de hipoadrenocorticismo, uma disfunção hormonal aonde a glândula adrenal entra em falência e passa a não mais produzir cortisona. A partir daí começaram os cuidados especiais e medicação diária para fazer a reposição de hormônios. A vida seguiu, com alguns ajustes de rotina, e mais cuidados com a saúde. A resistência dele seria menor, e havia probabilidade de ver problemas renais no futuro, mas assim seguimos. 

Com o passar dos anos adotei a Lucy e um ano depois a Kika, quando já tinha meu hotel e creche para cães. Nessa etapa eu já tinha adaptado minha vida aos cães e tinha certeza que era isso que queria para mim. Eu queria ensinar as pessoas a viver com cães. Minha visão era tão clara que eu tinha absoluta convicção que tudo funcionaria bem. Mas a vida sempre traz mais algumas surpresas... 

 Lucy

Lucy

Nesse período que comecei a ver que muitas das pessoas que procuravam serviços para cães, não tinham ideia do que fazer com esses cães em casa, dentro de suas próprias vidas, e os serviços como creche e hotel acabavam sendo uma via de alívio para que as pessoas pudessem voltar a fazer suas atividades sem se preocupar com o cachorro. Isso me intrigava. Eu já tinha sido uma cliente de creche para cães no passado e na época eu usava o serviço porque acreditava que seria melhor do que deixar os cães em casa, o dia todo, sem fazer nada. Mas eu sempre mantive uma boa rotina com meus cães, com caminhadas diárias, mesmo em dias que os cães frequentavam a creche. 

Ao longo de meses fui observando os hábitos das famílias, e o interesse que cada uma delas tinha em absorver o conhecimento do que fazer com cães e transferi-lo para a sua vida doméstica e social com eles. Percebi que isso quase não acontecia. Uma boa parte do público consumidor continuava sem saber o que fazer com os cães em casa, e os serviços para cães acabavam se mantendo necessários, sempre como essa válvula de escape que permitia mais tempo para as pessoas fazerem outras coisas sem se preocupar com o que estava acontecendo com os cães, afinal, eles estariam sob excelentes cuidados e tendo atividades e interação diárias. 

Depois de um tempo nessa jornada, entendi que ali não estava a resposta. Se eu realmente queria ajudar as pessoas eu deveria encontrar uma outra forma. Na época eu falhei em não considerar converter o espaço numa outra proposta, como um centro de treinamento, porém, essa ideia até passou pela minha cabeça, mas não da forma como passa hoje, por isso acho que foi melhor não ter feito naquele momento. 

Nessa transição eu sinceramente considerei optar por outra carreira. Eu tinha dedicado muita energia à um proposito que não se fez claro, e a culpa era minha. Me permiti um intervalo e cuidei dos meus cães. Repensei muito e resolvi voltar com uma possibilidade diferente; apenas atendimento individual, na casa do cliente, no universo que ele vive com seu cão. Era um risco grande, mas era necessário. Nessa fase, com a explosão da internet e redes sociais, tive a oportunidade de conhecer outros profissionais, outras técnicas, outros formatos de trabalho e outros caminhos. Muita coisa começou a ficar mais clara e eu entendi o que realmente precisava ser feito. 

 Kika

Kika

Um ponto importante a se considerar é que, durante toda essa montanha russa de emoções e decisões, eu tinha meus cães, uma turma considerável em casa, que continuava precisando de mim, para tudo! Não havia tempo para parar, fazer retiro, viajar ou lamentar as perdas. Eu tinha que fazer minha parte. Eu tinha que dividir a rotina, caminhar com os cães, dar banho neles, dar comida, limpar o ambiente e treina-los para que pudessem ter um convívio harmônico entre todos. Isso demandava muito mas era o preço das minhas escolhas. Esse era o ponto que eu precisava passar, com clareza, para meus clientes. Cada um de nós, que tem cães, vai viver surpresas, imprevistos, altos e baixos, e os cães vão estar ali, não necessariamente para te confortar, mas porque precisam de você. Para eles o mundo e vida continuam e eles contam com você para continuar gerenciando e orientando cada passo dessa jornada. 

Ao longo dos anos, já trabalhando nesse novo formato, entendi que a grande necessidade desse mercado estava, de fato, no esclarecimento que as pessoas precisavam para realmente assumirem seus papéis com seus cães. Existia, e existe ainda, uma visão muito romântica sobre a vida com cães. A mensagem que é passada para o público é que tudo é maravilhoso e a relação é a pura expressão do amor. Dependendo da interpretação pessoal de cada um, isso até pode ser real, mas quando vamos começar a falar de sacríficos e responsabilidades? Quando vamos falar sobre a real rotina necessária para manter um cachorro saudável, mental e fisicamente? Quando vamos falar sobre os efeitos e riscos de uma vida sem regras e sem rotina adequada? E quando vamos falar sobre tudo que você precisa abrir mão para ter o cachorro que sempre sonhou? 

Essas perguntas se transformaram no foco do meu trabalho. Quando mudei minha forma de trabalhar comecei a dedicar muito tempo conhecendo cada cliente, cada membro da família e como cada um se comporta. O cachorro é sempre um reflexo dessa relação e da rotina e interação que ali existem. Sem o elemento humano, nós profissionais não somos capazes de criar soluções reais. 

Nos últimos anos tive a oportunidade de aprender muito com cada família que atendi, e ainda aprendo. Cada família é uma historia e cada cão é um indivíduo dentro daquele contexto. Saber trabalhar vendo cada cliente como um novo indivíduo muda tudo. É poder adaptar o processo de aprendizado para cada pessoa, e ajustar o passo para garantir um bom resultado. É avaliar cada caso e mostrar o que pode ser feito, e o quanto de dedicação e trabalho isso vai custar. É criar o senso de responsabilidade, em cada pessoa, para que a execução das tarefas traga a satisfação final.  

Eu tenho esse diálogo com os clientes porque um dia já estive nesse lugar e precisei de ajuda e referências. Antes de ser uma profissional da área, eu sou uma pessoa normal, que tem cães em casa, e que tem responsabilidades com eles. Já passei, e ainda passo, pelos erros, pelas dificuldades e pelos sacrifícios por isso eu sei como ajudar. 

Minha reflexão, nesses dez anos, talvez possa se resumir nos seguintes dez pontos; 

  1. Ter cachorros é muito mais do que todos imaginam, no lado bom e ruim.
  2. A vida com cachorros vai mudar sua vida pessoal de forma muito expressiva
  3. Cada cachorro é uma caixinha de surpresas, você vai entender a mensagem depois de alguns anos. 
  4. Não é fácil, mas pode ser muito recompensador, se você se dedicar. 
  5. Os cachorros não substituem pessoas, eles te ensinam à ajudar pessoas que precisam de ajuda. 
  6. Cachorros gostam, e precisam de pessoas fortes.
  7. Cachorros, e pessoas, só aprendem quando existe um bom professor. 
  8. Amar um cachorro, é muito, mas muito mais do que um chamego, um petisco, uma dormida na cama ou uma brincadeira no parque. 
  9. A vida com cachorros, pra quem quer aprender, é uma escola, do primeiro ao último dia de vida do cão. 
  10. Tudo pode acontecer e você precisa estar preparado, como em um casamento, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza. 

Meu objetivo com esse texto é contar um pouco da minha trajetória, e fazer todos pensarem bem sobre suas vidas com seus cães. Eu não desenho um quadro colorido porque isso não é real. A vida com cães exige muito de cada um de nós, mas também traz grandes recompensas. Pode ser maravilhoso, mas cada um tem que fazer a sua parte, assumir suas responsabilidades e entender que para chegar no patamar de maravilha, precisamos começar pelo primeiro degrau dessa escada, que pode não ser tão atraente assim.