Prevenção no trabalho de adestramento e modificação comportamental: hábitos de convívio

Quando falamos de adestramento ou treinamento de cães, não necessariamente pensamos imediatamente em modificação comportamental, mas em criação de novos padrões de resposta à novas aplicações de conduta. Porém, todos nós que trabalhamos nessa área, sabemos que o público que busca o adestrador, na verdade está em busca exatamente desse trabalho de modificação comportamental.  A verdade é, poucas famílias investem num trabalho comportamental na chegada do cão.  A busca por ajuda acaba acontecendo normalmente quando o problema já escalou e a família não consegue mais acomodar as consequências, por isso hoje, vamos falar em prevenção.

Frequentemente eu falo em meus vídeos sobre questões de relacionamento entre cães e suas famílias, e como esse fator reflete diretamente no comportamento dos cães, dentro e fora de casa. Nossa postura com nossos cães dita como eles se comportam ao nosso redor, e o melhor exemplo disso são aquelas situações aonde o cachorro muda completamente nas mãos do profissional, mesmo diante da família.  Mas porque isso acontece e como uma mudança pode ser feita de forma efetiva para virar esse jogo?

Vamos começar com o básico. Independente do problema de comportamento que seu cão possa apresentar, a primeira pergunta deve ser: Como você vive com seu cão? Quais são os hábitos diários? O que vocês fazem juntos e como fazem? Quais as regras da casa? Quais as regras de convívio? O que é permitido e quais são os limites e consequências apresentados ao seu cão? Como você vê seu cão?

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Todas essas perguntas estão diretamente ligadas ao seu lado emocional e racional no que diz respeito à sua ligação com seu cão. Nessa análise normalmente vemos extremos, como relações baseadas em afeto, permissividade, falta de limites e compensações. Vamos ver alguns exemplos:

1.     Cães criados sem restrição de espaço, ou seja, livre acesso à circulação da casa à todo momento.  Esses são cães que normalmente cometem muitos erros e sem orientação devida, esses erros se tornam hábitos como fazer xixi no lugar errado, destruir coisas da casa, comer lixo, latir compulsivamente, pular nas pessoas, subir nos móveis, tomar posse de brinquedos e outros objetos entre outros.

2.     Cães que tem afeto constante e engajamento não produtivo. Esses são cães que dormem na cama do dono, estão sempre no colo, sempre recebendo carinho mesmo quando fazem coisas erradas como pular nas pessoas, sair correndo quando a porta abre, ser invasivo com visitas etc. Existe apenas uma relação afetiva, às vezes nenhuma atividade física, quase nenhuma disciplina ou treinos de criação de bons hábitos.

3.     Cães que não tem referencia do que é certo ou errado.  Esses são cães que nunca receberam um bom condicionamento de hábitos domésticos e sociais. Estamos falando de coisas simples como, o que fazer quando a família está na mesa fazendo uma refeição? Ao invés de ensinar o cão a ficar deitado no espaço dele, por exemplo, nesses casos a família não instrui e deixa o cão circular livremente, esperando ele errar para ou corrigir ou deixar o erro acontecer.

4.     Cães que recebem brinquedos ou petiscos como alternativas para driblar comportamentos negativos. Esses são cães que já começam a demonstrar problemas mais sérios como ansiedade de separação, comportamento possessivo e/ou territorial, reatividade com pessoas ou outros cães e etc. Nesse casos as famílias optam por oferecer mais “alternativas” para tirar o foco do cão do problema e tentar agradá-lo com coisas que ele teoricamente gosta.

Percebam que em todos esses exemplos existe um claro desequilíbrio de orientação e comunicação entre humanos e cães. Realisticamente falando são fórmulas que não tem como dar certo, já que estamos o tempo todo tentando evitar o problema e mascarar os sintomas com justificativas como:

“mas se eu tirar ele da cama ele vai ficar triste”, “se eu não der brinquedo antes de sair ele faz um escândalo”, “ele não deixa ninguém chegar perto de mim porque ele tem ciúmes”, “cachorro feliz não fica parado”, “ele pula nas visitas porque ele adora pessoas” e por ai vai.

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Vejam que o cachorro reflete em seu comportamento toda nossa inabilidade de controlar esses cenários. Para eles é muito claro que, se eles não tomarem a frente da liderança nessa relação, ninguém mais vai fazer isso.  E claro que quando entregamos ao cão a responsabilidade de tomar decisões, ele com certeza vai fazer do jeito dele, sem considerar as nossas frágeis emoções.  

Tudo que descrevi até agora são exemplos de falta de prevenção, ou seja, todo e qualquer comportamento negativo que venha como consequência disso, vai ter que ser trabalhado com base em mudanças de todos esses pontos.  Nesse trabalho, não basta apenas lidar com as consequências, mas sim com as reais causas desses problemas, e essa mudança real só acontece quando a família entende, de fato, aonde está a raiz do problema.

Então quando falamos sobre cães que puxam na guia, cães que mordem pessoas estranhas, cães que tem comportamento possessivo, cães que atacam outros cães, cães que tem comportamento destrutivo e etc. estamos falando de cães que apenas apresentam sintomas que refletem as consequências da falta de prevenção, ou seja, faltou um trabalho de orientação de base.

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Em resumo, se você identificou problemas de comportamento no seu cão, e está disposto a investir em ajuda profissional, esteja pronto para fazer mudanças drásticas, não apenas de convívio com seu cão, mas de postura pessoal. Isso vai ajudar imensamente no processo de modificação comportamental, e você vai entender que precisa existir um equilíbrio entre razão e emoção para que possamos viver de forma saudável com nossos cães. Só receber amor dos cães é querer viver uma relação unilateral. Seu cão precisa de mais, mais orientação, mais clareza, mais participação e mais informação para aprender a fazer boas escolhas para a vida.  Pensem nisso.