Caso do Cachorro Orelha: Crueldade, Internet e a Sociedade do Esquecimento.

O caso do cachorro Orelha foi uma das piores atrocidades já expostas em grande escala na era digital frente à sociedade moderna. Um crime horrendo, cometido por adolescentes, com o mais alto grau de crueldade e frieza. O fato chocou a população do Brasil e gerou conteúdo para discussões que duraram por duas semanas. Mas qual foi o final dessa história? 

Como tudo na era moderna, o fato gerou polêmicas, discussões, brigas cibernéticas e algumas manifestações locais. Porém, o que ficou escondido de verdade foi o real problema. A desgraça alheia virou entretenimento, e a vida e morte foram apenas tópicos para influenciadores e políticos que viram nesse caos a oportunidade de marcar sua presença e empurrar suas agendas para cima das mentes incapazes de enxergar a realidade.

A poeira baixou, o carnaval chegou e as novas tragédias viraram os tópicos mais interessantes. O cão foi esquecido e sua morte facilmente substituída por novos vídeos de escândalos pontuais sobre temas inúteis e frívolos que seduzem facilmente o povo que clama pelo próximo momento de choque. Sejam bem vindos a era da internet, onde todo repúdio tem prazo de expiração de menos de um minuto e a sede por desgraças coletivas alimenta o coração do entretenimento mundial. 

Em menos de um mês após a morte do cão Orelha, um outro caso similar aconteceu na mesma região, dessa vez cometido por crianças de 12 anos de idade. Mas esse caso não foi divulgado, não houve comoção, manifestações nem qualquer alvoroço na internet. Até porque não foi apenas um caso. Só no mês de fevereiro de 2026, 3 casos além do cão Orelha foram reportados na região de Santa Catarina, envolvendo alto grau de violência e tortura, mas nenhum deles viralizou ou tomou conta das manchetes principais de notícias do país. Porque? Porque como sociedade estamos sendo condicionados a variedade no nosso cardápio de tragédias e o que move o entretenimento é o giro de alternativas, não a consistência em tópicos específicos. A comoção nunca foi pelo cachorro, mas sim pela oportunidade de nadar em mais uma onda de atenção online. 

Infelizmente cães são torturados e mortos com muita mais frequência do que gostaríamos de admitir, da mesma forma que atrocidades são cometidas contra humanos em mesmo ritmo e velocidade, porém já fomos condicionados a não participar de nenhum movimento ou ação de valor como tentativa de solucionar esses problemas. Aceitamos que é assim mesmo e que nada nunca será feito. Temos essa conduta porque muitos de nós queremos apenas participar e não encabeçar uma proposta de solução. Liderar uma iniciativa para de fato resolver o problema significa sair da internet e de fato agir. Criar um plano, organizar pessoas, montar uma estrutura que possibilite uma solução. Pressionar autoridades, revisar leis, entender penalidades e educar a população. Mas isso dá trabalho e exige que tenhamos uma postura muito além de apenas reações imediatas na internet. Quantas pessoas querem de fato fazer tudo isso?

Inicialmente quando pontuei a minha crítica às práticas da conduta moderna online, é justamente pela nítida diferença entre reações digitadas em postagens de rede social versus atitudes no mundo real. Essa distância é gritante. Quanto mais tempo as pessoas dedicam às redes sociais, mais elas perdem a noção de conduta social real. O mundo online é uma ilusão, onde não existem filtros sociais reais. Muito do que é dito na internet jamais seria dito frente à frente, e todos nós sabemos disso. Além disso, boa parte do engajamento online hoje não é mais real ou orgânico. Temos uma quantidade absurda de perfis robôs que são gerados apenas para essa função: inflamar conversas humanas e desencadear o caos coletivo. Fica a dica para todos vocês: muitas das discussões que vocês têm hoje em redes sociais são unilaterais, ou seja, você está literalmente falando sozinho. 

Tudo isso é o resultado da escolha por conveniência. Ficar na internet é mais fácil do que conversar com pessoas de verdade. Frente à frente a interação requer habilidades sociais reais como leitura de ambiente, observação de linguagem corporal e verbal, diversidade de diálogo e régua intelectual para discussões de assuntos importantes, sem contar com a apresentação de personalidade e habilidade de lidar com cenários inesperados. A maioria das pessoas que abriu mão da interação pessoal real e assumiu a internet como praça pública não tem nenhuma dessas habilidades. A escolha de conveniência vem dessa fuga. Por isso temos uma enxurrada de perfis falsos sendo conduzidos por diálogos copiados e colados de inteligência artificial. Muitas dessas pessoas são aquelas que cometem crimes contra animais. São os frutos de uma criação omissa entregue à doutrina na internet. Pais ausentes, filhos ocupados com celulares nas mãos sem qualquer linha moral ou princípios. A receita para o desastre. A nossa realidade.

Que o cão Orelha e todos os outros animais que sofrem todos os dias por tortura, negligência e descaso, e perdem suas vidas pela nossa falta de responsabilidade pessoal, nunca sejam esquecidos. Que nós possamos acordar, enquanto é tempo, e voltar a viver uma vida mais humana, com um olhar mais profundo para tudo que nos foi dado de bênçãos nesse universo, incluindo nossos animais. Que nós façamos melhores escolhas, e criemos melhor nossos filhos. Que possamos recuperar os resquícios dessa sociedade decadente, com melhores ações e iniciativas reais antes que seja tarde demais. Se não por nós, mas por todos que vem pela frente. 

Meu apelo aqui é para sacudir e acordar as pessoas para a realidade e as armadilhas. Nenhuma nova lei vai mudar a conduta de pessoas constantemente influenciadas e condicionadas à um mundo artificial. Empatia, responsabilidade, consequências e princípios não se aprende em redes sociais, se vive na prática, todos os dias, no seu mundo real. Vivam, cobrem, apliquem. É só assim que se muda o curso desse barco. 

Próximo
Próximo

Alerta: A Nova Falácia da “Saúde Mental Canina” e o Perigo da Medicação